Meu mundo

Eu nasci na primavera, a mais poética das estações. Corri solto pelo mato, sem sustos, nem ambições. Sem saber nada da vida, política, economia, a mídia e seus jargões; vendo perto, enxerguei longe, nos fins dos mundos criados, deitado em minha calçada, embaixo dos janelões, quieto, olhos fechados, vi muito acima das nuvens mil sóis, planetas e estrelas, em tantas constelações. Transportei-me tantas vezes para mundos nunca 
andados, lá fui rei, fui majestade, todos os planos sonhados, fui criança, fui vovô, fui bicho, fui coisa feia, só não fui coisa malvada, coisa tosca, arrepiada, das noites de lua cheia. O mundo era tão gigante e também bem pequenino; tão alto, inalcançável, extenso e tão profundo, mas era por mim tocado, cabia como um bocado em meu coração de menino. Muitas vezes fui à roça, sozinho pelo caminho, ouvindo o som do vento e canto de passarinho, catando fruta no pé, de calção, baleadeira, e até sem nada no pé, muitos perigos até, nada que fosse daninho. Nesse tempo eu aprendi a pensar e meditar, deixar a mente fluir, rever e considerar, fazer mil conjecturas, planos, cem travessuras, desconstruir, consertar; entendi que pra saber é preciso aprender e, pra isso, se aplicar. Inda nem me conhecia, sei que já O conhecia; cri em Deus desde pequeno, a ele me entreguei, dediquei-me por inteiro, como um mirim-obreiro, nessa lida me joguei. Cantei no templo vazio, ouvindo a voz ecoar, como voz de um arcanjo em Dó sustenido ou Fá; era tudo muito belo, sublime, simples, singelo, alegra-me só de lembrar. Eu era tão pequenino, ingênuo, e já tão cheio de amor; ensaiava a minha vida, sentindo que a minha sina era a de ser um pastor. Cresci, e foi de repente, bati asas, virei gente, ganhei o mundo, afinal. Mas que mundo era esse? Tão duro, tão enquadrado, pontudo, chão ressecado, que não consegui me encontrar? Procurei achar a rima, o tom, a métrica certa, sair daquela ciranda que minh’alma confiscou; vi-me preso, desolado, confuso, desconsolado, meu coração se afogou; procurei, em desespero, “achar pé”, buscar sentido, ver razão em certas coisas, das muitas que tinha lido; vi que tudo era bobagem, religião sem amor, apenas coisa de homens, em nome do Deus Eterno, sem saberem que essa forma de lidar com coisa séria pode levar ao inferno. Procurei, então, achar uma forma de viver na presença do Senhor, que o pudesse agradar; sem reza, missal ou rito, mas na forma que o imito, sincero, me expressar. Larguei fora o paramento, olhei pro céu bem atento, desejando ir pra lá. O meu mundo é bem suave, líquido, livre, sem rupturas, sem agressividades, ou amarras legais; vejo traços menos retos, contornos desconexos, e cores em mil tons; tudo à minha volta canta, sussurra belas melodias, e baila. Melhor do que aqui, o mundo como eu vejo, só mesmo o paraíso, que na alma tanto almejo. Quando o som da trombeta ecoar, rasgando o divino véu, e, por fim, eu me encontrar com o meu Jesus no céu, aí, sim, acabará toda tristeza e pesar, e terei o meu laurel.
 
Itamar Bezerra