Maquiagem

Trata-se da arte de esconder imperfeições (grosseiramente falando, claro, uma vez que também carrega a missão de destacar e valorizar o que já é belo). Mas escolhi a primeira parte para comentar algo muito importante aqui. De alguns anos para cá eu venho estudando e descobrindo coisas sensacionais no campo da fotografia. Sempre que posso, especialmente nas viagens, faço fotos segundo o meu olhar, e quando dá me divirto editando-as. As ferramentas oferecidas pelos photoshops são mesmo impressionantes e até intrigantes. Uma edição inteligente e criativa pode transformar a foto registrada em outra coisa; pode salvar também uma defeituosa, ou estragar uma interessante. Alguns efeitos utilizados até 
parecem magia. Deixe-me dar um exemplo: Como regra quase inquebrável, sempre que está diante dos meus olhos, na tela do computador, uma foto de qualquer pessoa, com exceção de crianças, começa a sessão de “maquiagem” extrema. Onde houver um mínimo defeito, ali acontecerá um retoque, um ajuste, uma mudança importante qualquer. Tiram-se manchas, espinhas, pés-de-galinha, deixando a pele como a de uma criança. Se os dentes estiverem amarelados, ôxx, com poucos cliques eles ficam branquinhos de leite; e se estiver algum canto banguelo, não tem problema, recorta-se um bom e cola-se na vaga, em segundos. Se o olho estiver fechado, ou de peixe-morto, podemos abri-los; se forem pretos, verdes ou azuis, e o cliente quiser de uma outra cor, tá... Rapidinho, mudamos o tom. Se alguém for careca, perneta, pançudo, seja lá o que for, é possível deixa-lo um astro de cinema, ou uma Miss. Aliás, resumindo, pode-se ajustar e mudar qualquer coisa numa figura estática. É muito raro encontrar uma imagem em revistas, ou na TV, que seja real, que esteja em caráter natural. Queremos sempre encobrir a nossa “nudez” desde o Éden; não suportamos as imperfeições divulgadas; necessitamos expor apenas o que julgamos ser bom, bonito e agradável; temos vergonha de qualquer coisa que nos pareça diminutivo. Por isso maquiamos, usamos filtros, próteses, embustes, qualquer recurso que nos promova a heróis. E a esquizofrenia que embala a nossa vaidade é tão grave que maquiamos um morto, como se pós e pincéis pudessem encobrir a feiura da morte; tantas pétalas sobre o corpo inerte, e o respingar de perfumes de quando em vez não alteram o placar ou a condição nefasta do salário do pecado. Gente, somos todos imperfeitos, limitados, problemáticos, e definhamos naturalmente ao correr dos ponteiros do relógio, queiramos ou não. A indústria de cosméticos cresce no mundo inteiro; as cirurgias estéticas se multiplicam; a tentativa humana de se manter jovem é ridícula e infantil. Desde que o mundo é mundo, nascemos, crescemos, amadurecemos, envelhecemos e morremos. O cabelo fica branco, a pele se enruga, os músculos se enfraquecem, tudo, enfim, degenera. A maquiagem é grande amiga, pois levanta o astral do indivíduo; engana a quem vê e a quem quer ser visto... Vamos seguindo assim, alimentando a nossa loucura, no grande palco da vida. Só não existe maquiagem para o pecado; nada altera a sua tez escabrosa...
 
Itamar Bezerra