Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte...

Não temerei mal algum, porque tu estás comigo. Ué, tu estás comigo no vale? E por que não me livra do vale? O Deus Todo Poderoso, que a tudo fez e governa com o poder da Palavra; que estende a mão de poder e ninguém pode deter; que está assentado em um alto e sublime trono, e tem a terra como o estrado dos seus pés... Se tu és todo amor e bondade, justiça e retidão; se és misericordioso e assaz benigno
, e livras o teu povo da hora da calamidade, então, por que não me livras do vale da sombra e da morte? Talvez seja essa a pergunta que muitos teimam fazer, quando visitados por laços de morte, ou angústias do inferno. Há momentos lancinantes na vida do ser humano, que parecem revelar que Deus se ausentou, ou se mantém indiferente ao sofrimento. Como fonte primeira e derradeira de todo o bem, e recurso para onde nos abrigarmos, não poderia haver desconsolo maior que sentirmos o desamparo de Deus, inda mais na hora mais cruenta. No Gólgota, o Senhor Jesus, agonizando, bradou: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Que sensação dolorosa e triste. Ainda que a realidade não seja o que a alma projeta, ainda que a dor potencialize o quadro, para quem sofre o que vale é a sensação – só sabe quem passa; a minha dor de dente dói muito mais que a fratura exposta do meu vizinho. De modo que ninguém pode nem poderia avaliar o que Jesus sentiu naquela cruz. A dor é uma realidade da existência humana, desde que Adão e Eva pecaram. De lá pra cá, as aflições fazem parte do currículo de quem está inscrito na academia da vida. O aprendizado é constante, progressivo e efetivo; subimos montanhas, galgamos outeiros, seguimos planícies, trilhamos longas estradas, mas também descemos vales, depressões e grutas. Em nossa jornada sorrimos, festejamos, celebramos a vida e seus sabores, também administramos a mesmice e o cotidiano morno, mas muitas vezes choramos, gememos, adoecemos e ficamos de luto. Satanás, a carne e o mundo conspiram contra a saúde integral de que necessitamos; situações e circunstâncias diversas nos circundam todo o tempo, interagindo com o nosso mundo interior; são coisas boas e edificantes, ao lado de outras danosas e adoecedoras. É a escola da vida, na qual estudamos e aprendemos, onde está sendo forjado o nosso caráter e a textura da nossa condição espiritual. É no vale da sombra e da morte que aprendemos que nada somos e que dependemos inteiramente do socorro de quem nos guia; é no vale da sombra e da morte onde discernimos o tamaninho que somos, e quão grande é o Senhor; é no vale da sombra e da morte que aprendemos a valorizar a presença e a companhia divina. Ali estão os nossos medos, a nossa insegurança, os fracassos, e toda fragilidade grotescamente exposta. Ora, se temos mesmo que passar por vales escuros, e não nos resta alternativa, é bom saber que não estaremos sós, Ele nos acompanhará em nossa angústia. Afinal, afirmou: Eis que estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos.
 
Itamar Bezerra